Vida, morte, cenas...

06-03-2019

louco

Estava aqui eu a pensar como devia ser um casamento a meu ver. Imagino-me com uma rapariga XPTO num altar:

- David, queres cometer loucuras completamente sem sentido com esta fulana até cair um meteoro do céu e todo o mundo desaparecer? - diz o gajo que estava a ler um jornal ao meu lado esta manhã (achei-o fixe).

- Claro! Porque não? Foda-se! 

E pronto... lá ia eu com os olhos a brilhar por saber que agora podia ter uma vida louca a dois. Qual juramento de amor qual quê! Isso já tem de estar muito bem jurado, para quê questionar isso em frente a um público cujo metade não devo voltar a ver tão cedo? Depois claro, estou a imaginar as minhas conversas com as pessoas: 

- Então mano, que vais fazer este fim de semana? 

- Epá... estava a pensar em acampar perto de um rio cheio de peixes perigosos e passar o dia a tirar selfies com eles. 

- Mas tu és parvo caralho? 

- Hum, sou? Realmente sou. Mas que se foda.

Habituar-se-iam. Também acho que aqueles jantares de domingo são bué foleiros, no sentido de uns quererem saber sempre a vida dos outros. Eu faria antes uma rave. Com aquele chinfrim todo queria ver quem é que ia perguntar "Então e o teu homem ainda continua gordo?". Isso é no Natal pá. Quem se preocupa não deixa para domingo o falatório. Amor louco não faltaria, é disso que o pessoal precisa. No trabalho também seria interessante: 

- Chefe, preciso de um aumento... 

- Então mas quê? Não me digas que vais ter um filho!?

- Não. Mas gostava de planar um vulcão com a minha mulher e alguns amigos meus, sabe como é. 

- Ah, excelente! Assim sendo, se entregares este projeto "filha da putiçe" numa semana eu trato-te disso. 

E lá trabalhava como um cão chanfrado da cabeça nessa semana. Loucura sempre em todos os aspetos. Qual Ricardo Reis qual quê! A vida é para ser intensa. E lá começo eu a pensar se isto e se aquilo, quando a sociedade considera que a loucura é uma doença. Estou fodido malta.


circunstância

Adoro-te. És aquilo a que chamam de "circunstância". Como podes ser tão espontânea? Nem consigo descrever este sentimento de estar a escrever e, subitamente, olhar para a janela e perceber que já está de dia. É uma circunstância da vida mas é bom ver o nevoeiro a cobrir a vila como se esta fosse desaparecer. Tens uma crueldade tão atraente... Como é que um tigre sabe perfeitamente o que tem de fazer para caçar a sua presa? Sou o único que acho tão espetacular ver um animal geneticamente perfeito para caçar a agir? Observo bem como as pobres presas se apercebem que estão em perigo e agem como nós em estado de desespero: cada um por si. São tudo circunstâncias da vida! És como partículas atómicas, estás em todo o lado. Estás no choro de um bebé que se aflige por estar a respirar a primeira vez e estás no olhar lacrimejado de alguém que observa o olhar vazio de um já cadáver. És a ação e a consequência porque tudo tem uma circunstância para ser e outra por criar. És a base do sentimento, do pensamento e de tudo. És o abstrato de um facto, a filosofia de um cientista. És o motivo de estar a escrever e de querer tudo aquilo que desejo. Chamamos-te de "circunstância da vida", quando desconhecida és a "sorte" e quando odiada és o "azar". A meu ver, nem nome verdadeiro tens.


morte

Morte, como que uma sombra ausente em plena luz do dia e perturbadora na clareza de um olhar, como fazes para devorar tão calmamente a vida de uma criança com uma história por criar? És esquisita nas tuas escolhas. Tristeza, que te apresentas ao estranho com um sorriso, porque é que só fazes mal a quem te passeia e só na tua monstruosidade é que te chamam de doença? Que falsa... Sempre me cativou. Saudade, um nome tão deslumbrante cujo sentimento debilita a certeza de uma decisão, porque é que és tão bela e tanta gente chama-te falsamente? Não te distinguem do arrependimento, talvez. Guerra, tens tantos significados e muitos deles bonitos, porque é que um deles é ver sangue de um ser humano com uma ideia diferente e isso ser um sinal de honra? O meu tio viu-te em primeira fila e, sem um único arranhão, ficou para sempre morto, de tanto pensar nessa tua "honra". Contudo, algumas das histórias mais belas são criadas por quem passa por ti. Paixão, diz-me mais algum motivo para tu existires para além da mera reprodução. Será que existirias se não houvesse o fator reprodutivo na natureza? Há mais alguma razão para querer alguém na minha vida dessa maneira? Amor, és o sentimento mais belo de todos ou o mais feio? És uma mistura de paixão e sacrifício ou de insegurança e obsessão? Não quero socializar contigo, pareces perigoso. Paz, és sequer real? Paz é aquilo que temos como objetivo sempre: viver em paz, estar em paz, "deixa-me em paz" e morrer em paz. Atingimos a paz alguma vez sequer? Felicidade, és viciante. Encontro-te muitas vezes quando o meu coração começa a bater e sinto que me apetece ouvir música ou fazer alguma coisa, ou quando estou sozinho a ver uma paisagem e começo a pensar no quão espetacular tudo isto é. É inexplicável e dás sentido a tudo. E concluindo toda este emaranhado de um pensamento ridículo, devo dizer que, vida, aprecio as tuas boas e más facetas, por seres tão estúpida.

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