O Pintor do Fado

Dizer-te ia em tempos que o importante é seguires o teu coração, alcançar sempre os teus objetivos independentemente das tuas dificuldades. Dizer-te-ia para te perderes no enorme horizonte, que sempre será um horizonte por muito que caminhes. Falar-te-ia da importância de nunca ouvires o que os outros têm para te dizer, para utilizares a cem por cento o teu ego, seres um cabeça-fria e subires os degraus, que muitos não conseguem por serem bondosos demais, na escadaria da vida. Ter-te-ia sufocado com ideias diretas, sobre a beleza do sucesso, a imponência das leis da natureza e do quanto dependes de tudo o resto que te rodeia, daí teres de ser melhor que tudo o resto.
Uma coisa é certa, cada pessoa tem o seu caminho. Percurso este que pode ser ou não alterado forçadamente pelo ser que a controla, contrariando o destino. O Fado é apenas um desenho que um pintor criou para cada pessoa, deu-nos como prenda e agora cada um pode ou não lhe dar um acabamento. É tão simples assim. Por muito que não façamos nada, a vida segue na mesma sem pedir com licença. E é aí quando te deparas com tudo ao teu lado a mover-se, ficando tu quieto. É aí quando vês pessoas a pisar-te com tons a mais de vermelho no seu maldito "desenho". É aí que te questionas se vale ou não a pena aceitar a vida que o pintor te quis dar ou se é preferível completar o desenho com cores que não sabes o que representam.
Observo serenamente o meu desenho. Comtemplo-o com toda a minha vida, todo o meu ser. Por mais que antes tivesse tentado pegar num pincel e dar-lhe um toque pessoal, escolhi agora pousar o mesmo e observar a maneira como o desenho se desenvolve na degradação temporal. Observo pessoas que usam as cores erradas, mas tentam cobri-las com cores diferentes, ocultando todo o desenho original. Observo o tempo congelado, entre aquilo que eu queria ser e o que agora sou, e descobri o que sempre quis e sempre tive. Paz. Paz e sossego, duas grandezas sem medida. Prefiro saber que o meu desenho não é o que a minha mente anseia e não viver frustrado porque o meu vizinho tem um traço a mais do que eu.
Em tempos compreendi o amor, pensava eu. Quando a cabeça era leve, as preocupações eram mínimas e tudo o resto que me rodeava estava exatamente nesse mesmo estado. Tempos de pura inocência, onde todos os desenhos eram bonitos, o aborrecimento não existia e todas as cores eram uma novidade. Cada vez mais vejo menos cores, mais vermelho e menos azul, mais escuro e menos cores vivas. Não permitirei dar esse tom à minha vida, pois prefiro eu ficar para sempre sentado à espera do fim da minha história ao invés de, com medo, pensar que posso prolongá-la por mais um bocado ou fazer dela melhor.
Pega nos teus pincéis de deita-os fora. Não tens de tentar mudar o teu desenho por muito escuro que ele possa ser, apenas tens de o estudar mais um bocado. Pois se observares bem, o que tiver de ser mudado na tua vida para o mal já estará a preto: nenhuma cor se conseguirá sobrepor. Estuda as zonas brancas, os recantos coloridos, e retira deles a paz e o amor que mereces. Tu e todos nós.