Joana, droga.

06-03-2019

NOTA: ESTE TEXTO FOI ESCRITO EM 3 PARTES. ESTAS SERÃO DELIMITADAS COM NUMERAÇÃO.

(1) Mais um dia de merda. Repete-se vezes e vezes sem conta! Não entendo como é suposto a escola, que mais parece uma prisão autêntica em blocos de betão, ter como objetivo a aprendizagem e o bem estar. As pessoas também não são muito melhores! Quer dizer, não posso levar uma saia mais curta um bocado ou com um padrão diferente que a Ana e as amiguinhas de aluguer olham logo de canto? Por vezes consigo ler os lábios daquelas fulanas - "esta puta está no sitio errado, grande vaca". Ao menos no Instagram as pessoas gostam das fotografias que publico, pessoas de bom gosto como é óbvio. Não entendo também porque é que não consigo ter mais sucesso online, I mean, a Filipa nem tem grandes mamas e não mete nada de jeito e tem muitos mais seguidores do que eu! Não acho justo e isso irrita-me, bastante. Ninguém me entende. Em casa a minha mãe está sempre a queixar-se de eu estar constantemente no telemóvel e de não a ajudar com as coisas da casa. Sei que podia ser melhor para ela, mas parece que não tenho vontade de fazer nada, muito menos de estudar e fazer as vontadinhas dela! Se as pessoas que me interessam de verdade não me aceitam, por agora, também não me vou preocupar em ser melhor para mim mesma. Se tivesse um grupo de amigas como a Ana as coisas seriam muito mais fáceis. Ficaria logo mais famosa e podia publicar o que quer que fosse e andar da maneira que me apetecesse, ninguém falaria mal. Já estou farta de me dar com a Marcia e com a Patrícia... nunca fazem nada de porreiro e limitam-se a viver para os livros... Eghh! Já faltou menos tempo para simplesmente desaparecer desta merda toda e cagar para tudo e para todos.

(2) Tenho saído com o Paulo e os amigos, muito queridos e muito conhecidos no instagram! Têm muitas conversas interessantes, como se fossem já adultos a lidar com os seus problemas - autênticos filósofos e entendedores da vida. Já desabafei com eles a minha opinião sobre a escola e sobre as pessoas em geral e estão totalmente de acordo comigo. O Fábio por exemplo, saiu da escola aos 15 e está a safar-se bem a trabalhar com o pai. "Dá para o que quero" diz ele... O que eu realmente quero nem preço tem, ser mais respeitada e compreendida pelos outros. Na verdade, tenho estado com eles sempre que consigo e isso tem-me bastado para me sentir integrada nalguma coisa. Lá em casa é que tenho ouvido comentários idiotas do meu pai, como seria de esperar. "Não tens vergonha de andar a sair com esses gajos todos? Eles só te querem comer!" - nem ligo. Não entende a ligação de alto nível que tenho com eles, para mim eles são a minha verdadeira família. Nunca me falta nada quando estou com eles, nem me chateiam. Afinal, já trabalham e já têm possibilidade de gastar muito dinheiro. Também gostava de poder fazer o mesmo. Só há algo que me tem preocupado. Algo que a minha mãe sempre suplicou para que eu evitasse - droga. Já estou habituada a vê-los a fumar a sua "ganza" e respeitam o facto de eu recusar. Porém, gostava de ficar inteiramente conectada com eles. Quando ficam pedrados noto que o tema da conversa toca em pontos que não percebo inteiramente, talvez por não ter aquele bónus de inteligência que eles ganham por consumir aquilo. Sempre associei drogados e toxicodependentes a incultos mas bem me enganei. O Fábio fuma quatro charros por dia e é fenomenal! Nem sei porque raio foi aquele génio deixar a escola. Pondo este assunto de lado, a coisa não é assim tão cringe... Já aprendi a gostar da música que eles ouvem, só publico stories disso agora. Até porque está na moda! Não entendo muito bem o que eles dizem nas músicas mas curto a batida. Aquele Leandro é qualquer coisa, sempre que fuma põe-se a falar desses artistas e dos assuntos subliminares que apanha nos sons... Só parvoíces.

(3) As cenas na escola têm-se mantido na merda mas já não quero saber... Desabafei com o Paulo estes dias sobre isso e ele recomendou que me acalmasse e que um charro ajudaria. Pensei seriamente nesse assunto, sempre com alguma ansiedade pois sempre ouvi mal sobre a droga. Na escola já fui a várias palestras que diziam que cannabis e o seu THC prejudicavam os neurónios e que eu ficaria mais burra. Porém, na escola nunca dizem nada de jeito e já vi por mim mesma que um charrito não faz nada disso, até pelo contrário. Foi por isso que hoje meti um na boca. Foi horrível no começo... Nunca tinha fumado na vida e a sensação do fumo a invadir as goelas deixou-me logo enjoada. Perguntei-lhes se era normal e eles consentiram, era por causa do tabaco que tinham posto a mais por ser o meu primeiro charro. Notei que fiquei imediatamente seca e a tremer como uma velhinha de oitenta anos. Nem nos olhos sentia humidez, estava totalmente fora de mim. Ria-me de tudo o que eles diziam porque achava engraçada a maneira como estava a pensar nas coisas - ideias que nunca me tinham surgido. Estou-me a cagar para o futuro, o futuro a vida trará. Já não quero saber da merda do instagram e da merda dos meus pais. Só quero poder sair da escola como os meus amigos e viver feliz com coisas simples, como eles. Se soubesse que isto era assim já teria tentado faz séculos! O Fábio amanhã vai trazer drogas duras porque já não dão secura e ele tem quase a certeza que eu vou adorar. E quase de certeza que irei, afinal, que tenho eu a perder?

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